Guiné

A Vila de Guiné é hoje um distrito de Mucugê, município criado em 1844 em função do desenvolvimento do garimpo do diamante. Mas suas origens remontam a um passado mais antigo. Os primeiros habitantes conhecidos de Guiné foram os índios Tapuia, que aqui chegaram fugindo da seca de outras regiões e se estabeleceram para desenvolverem a agricultura. Já os primeiros registros oficiais do local encontram-se no Arquivo Municipal de Rio de Contas, município da Chapada Diamantina que prosperou com o ciclo do ouro entre o século XVII e meados do XVIII. Por ocasião de sua criação em 1844, Mucugê foi desmembrada de Rio de Contas com o nome de Freguesia de São João do Paraguaçu, voltando a se chamar Mucugê em 1917.

O nome “Guiné” provém da grande ocorrência de uma espécie de capim existente neste local, o Capim Guiné, que também deu nome ao rio que atravessa a vila, o Rio Guiné.

Segundo as lembranças de alguns dos mais antigos moradores vivos de Guiné, depois dos índios, as primeiras famílias a se instalarem por aqui,por volta de 1800, foram Josias, Zezinho, família Luiz, Hilário, Tomás, os Lopes, Leandro, filho de Hilário, que morreu em 1926, cada uma deixando vários herdeiros que compõem grande parte da população atual de Guiné.

Ainda segundo essas lembranças, os primeiros habitantes tinham vidas muito simples e passaram muitas privações. Viviam da caça e do cultivo da mandioca, andu, entre outras culturas locais, apenas para consumo próprio. Posteriormente, vieram a agricultura (café, feijão), o gado e o garimpo. Mais recentemente, o turismo começa a ganhar destaque como uma importante atividade econômica da Vila.

Um dos legados da época do garimpo de diamantes à Vila de Guiné é o patrimônio arquitetônico colonial, do qual infelizmente, hoje, só vemos uns poucos exemplares remanescentes. Um deles data de 1883 e abriga um importante fato histórico nacional, a passagem da Coluna Prestes em 1926. Nesta época, era uma casa comercial que, como as de outras cidades por que passaram, também foi ocupada por integrantes da Coluna. Sabe-se que alguns soldados pernoitaram na casa, e não se tem notícia de qualquer violência ocorrida nesta ocasião. O casarão foi inteiramente restaurado em 2013.

A Coluna Prestes se formou em 1925 como um movimento revolucionárioliderado por militares do Rio Grande do Sul (Capitão Luís Carlos Prestes) e de São Paulo (General Miguel Costa). Tinha por objetivo marchar por todo o Brasil denunciando o governo arbitrário e despótico do presidente Artur Bernardes e organizar a população para a implantação do Comunismo no Brasil. Esta marcha durou dois anos e três meses e percorreu cerca de 25 mil quilômetros por 13 estados brasileiros. Estas informações encontram-se no livro “A Coluna Prestes na Bahia” (2009), em que Renato Luís Bandeira menciona a sua passagem pelo Guiné. No dia 6 de maio de 1926 a Coluna se dividiu: o 4º Destacamento Dutra foi para Mucugê, enquanto a maior parte da Coluna seguiu para Guiné de Cima.

“Mucugê ficava fora da direção da nossa marcha. Diante disso, Prestes resolveu mandar até ali o Destacamento Dutra, porque esta cidade poderia nos fornecer algumas armas e munições, seguindo a Coluna para o povoado Guiné de Cima, onde o dito Destacamento deveria alcançá-la.” (p. 127).

Para a memória local, a passagem da Coluna foi bastante impactante. Ao saberem que os “revoltosos” se aproximavam, muitos moradores teriam abandonado suas casas e fugido para o alto da serra, “subido em árvores com espinhos”, esperando até que eles partissem. Isto porque as notícias dos vilarejos vizinhos eram que, ao chegar às cidades, a tropa saqueava o comércio local, roubava as criações, o gado e os estoques de comida para alimentar os integrantes da Coluna. Este episódio acabou nomeando um dos belos atrativos naturais de Guiné, o Mirante do Morro da Espera.

Tradições e festejos marcam a história de alguns habitantes do Guiné, que falam saudosos dos Carnavais que aconteceram aqui por vários anos, dos Reis das Lanternas e do São João, com suas quadrilhas improvisadas onde brincavam pessoas de todas as idades.

Fatos mais recentes também fazem parte do arquivo de memórias da população local: a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina em 1985 e a gravação do comercial de cervejas em 2014, por ocasião da Copa do Mundo no Brasil, são considerados muito importantes, ambos por darem visibilidade nacional e internacional à nossa pequena Vila de Guiné.

Texto de Luciana Godoy.

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